Intermitentes revoltinhas

Thursday, August 31, 2006

Busca da humanidade.


E sempre em busca. Hoje ao acordar a lembrança dos olhos de uma criança que eu vejo sempre, fizeram-me chorar. É estranho lidar com a dor. Quando a dor não é nossa, justamente por isso, a dor não é nossa. Nós choramos porque somos humanos, não porque nos importamos, acho. O ser humano chora, talvez, por medo, desespero ou complacência. A vida não nos é revelada de forma fácil. É difícil, mesmo com os outros, é-nos penoso, mesmo que só choremos por complacência, ou, incredulidade. O medo que a dor do próximo, nos torne os próximos é lacrimejante. Uma criança chora, pensamos em nossos filhos.
Uma criança, hoje me contaram, estendeu os braços para pegar algumas frutas, pitangas talvez, e aquelas armaduras que vestimos os muros contra os ladrões, (armaduras ou lanças?), feriu-a, feriu o ladrão de frutas. As defesas que atacam os ladrões feriram uma criança!, disseram-me: cinqüenta pontos, sim senhor. E inflamações constantes. Sempre em busca de um pouco mais de sangue. Acho que o sangue alheio, junto com as lágrimas, tem que estar presente, para que os seres humanos escutem a dor e lacrimejem e sangrem. Só assim nos tornamos humanos. Lamentável, era, hoje em dia, não. Hoje em dia o que temos é só desespero, dizem os velhos. Os velhos sempre dizem que antes era melhor. Não acredito. No antes dos velhos ninguém respirava, quem respirasse morria, Médici já dizia. Eu fico triste, as lágrimas vêm-me aos olhos, mas não descem. As lágrimas já não descem mais. Menina seqüestrada. Por quem? Ela seqüestrou-se. Foi embora com outra e voltou essa semana, para dizer à mãe que não volta.

Wednesday, August 23, 2006

As meninas vieram à exposição.
Paradas (sapatos com solas maiores
que outras),
olham os vestidos.

Elas vieram e são quatro
(presilhas, faixas e aqueles óleos
nos cabelos, são pobres)
e olham os manequins.

(curtas roupas: sainhas de pano elástico;
são pobres as roupas também,
manchadas
como a pele,
carcomida aqui e ali:
será por brincadeiras?)

Arrastam-se e expiam por baixo dos figurinos.

(magrinhas e longas)
Descem as escadas.
(vou à janela e vejo-as se afastarem:
mais uma memória ácida para o meu futuro)

Olho os vestidos: surreal.